A igreja que “deixou de ser isso”, mas “não sabe ser aquilo”

28 de junho de 2014

“Antes ele bebia, hoje não bebe mais”, “antes ele se prostituía, hoje não se prostitui mais”, “antes ele mentia, hoje não mente mais”, “antes ele era pobre, hoje tem um carro e uma casa”…

Frequentar uma igreja e ter no currículo o abandono de uma prática pecaminosa tem sido a “confissão de fé” de muita gente na igreja evangélica brasileira. Por isso não é a toa que há uma relação inversamente proporcional entre crescimento e relevância em nosso meio. Somos mais de 40 milhões de evangélicos! Uau!

As igrejas incham, incham, incham. Mas, ao que parece, a grande parte dessa massa enquadra-se no discurso do “não faço mais” e só; ao final ela se converte em meros números, dados estatísticos e em dízimos e ofertas.

A crise em nosso meio é tão anacrônica que não conseguimos diagnosticar a raiz do problema. Às vezes, de alguma forma, estamos dentro do problema, ou somos nós mesmos o próprio problema. Mas, neste viés, o da omissão, é possível conjecturar um pouco sobre nosso papel no corpo.

Nossas igrejas estão lotadas de novos crentes (convertidos ou não). Isto é fato. Crentes que necessitam de um discipulado e ao mesmo tempo precisam se encarregar de por as mãos no arado e iniciarem o que chamamos de boas obras. Portanto, a coisa não termina apenas na confissão barata de que “antes eu era adúltero, mas hoje sou fiel”. Ao passo que, “não fazer algo” e viver na prática do pecado não tem tanta diferença, principalmente quando se supõe que alguém recebeu a mente de Cristo, mas vive de forma medíocre ao redor do próprio umbigo .

Sendo bem sincero, o que ocorre é: quando uma igreja não é relevante para o mundo, o novo “convertido” logo aprende, a partir de sua comunidade que tudo tá resolvido: agora ele é benção, é filho do Rei, é cabeça e não cauda, e por aí vai… Inicia-se o processo de domesticação da fé. Algo terrível! Isto porque neste campo há uma infinda batalha entre o que eu quero fazer, e o que eu devo – Paulo fala sobre isso em Romanos 6.1. Então, já que eu tenho um testemunho de que “não sou mais aquilo”, e alguém “espiritualizado” legitimou minha salvação (ou mandou que se escrevesse meu nome no livro da vida), eu me deleito em Deus apenas naquilo que me é interessante, e não o que é interesse para o meu semelhante.

Não sei se na sua igreja ocorre isso. Mas nos tradicionais cultos domingueiros, muitas estão lotadas, mas simplesmente porque seus fiéis são meros consumidores a fim de receberem alguma benesse de Deus para passarem a semana na “benção”. Puro egoísmo e amor ao próprio ventre. O chamamento de Deus não é para que vivamos de receber, mas para que vivamos para se doar, dar, morrer, renunciar.

Nestes casos o senhorio de Cristo torna-se algo convencional, e relacione isso ao que temos visto e ouvido em relação aos “evangelhos de hoje”. Lamentavelmente, digo sem medo de errar, a imitação de Jesus feita pela igreja brasileira é uma imitação pirata, e das piores.

O que tento dizer é que, tristemente, muitos dos crentes não tem se doado em favor do próximo. Somos conhecidos pela omissão, e não pelo que fazemos de relevante para com os que mais necessitam de compaixão.

Na maioria das nossas igrejas, os projetos não são úteis, mas fúteis. Isso é reflexo deste anacronismo do cristão omisso, que deixou de ser o que era, mas que hoje não sabe ser, e vice-versa.

Imagine se cada igreja no Brasil evangelizasse, servisse e se envolvesse ao menos com a rua a qual está localizada. Certamente estes 40 milhões de evangélicos seriam conhecidos por toda a nação pela doação, amor e compaixão pela sociedade.

A lógica de todo este enredo é que, se alguém está em Cristo e nova criatura se tornou, deve compreender que é feitura de Deus, criado em Cristo Jesus para as boas obras. Não adianta ficar no “eu era”, é preciso algo mais, muito mais…

 

Antognoni  Misael é  paraibano e editor do blog A arte de chocar.

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