Jesus e o jumentinho: reflexões sobre fé e música

11 de maio de 2014
     Há algum tempo que tenho resolvido em minha vida a questão da música e das artes no contexto religioso, ou melhor, na espiritualidade cristã evangélica. Compreendi que a música não é, por si, demoníaca, maléfica ou imbuída de poder e influência malignas. Concordo com Rookmaaker que nenhuma arte é neutra, mas nem toda a arte é imbuída ou embasada no pecado por ter sido feita por um artista não evangélico ou sacra por ser feita por um artista evangélico.
    Quando o Palavrantiga gravou seu primeiro EP e lançou-o em SMD, tecnologia desenvolvida e patenteada pelo sertanejo Ralf, ficou evidentemente conhecida pela dupla que regravou “Casa”, o primeiro hit da banda.
    Ao ver tal coisa, nunca afirmamos que a música é secular ou que se tornou secular, mas louvamos a Deus porque o “mundo” está descobrindo as canções que foram feitas para o Senhor. “É profético”, dizem outros.
    Para quem pensa dessa forma a música gospel é a única expressão válida de nossa fé, é o caminho exclusivo para louvar a Deus, pois Deus é contido ou está contido apenas em nossas expressões evangélicas. Não nos importamos se a roupa que vestimos é ou não gospel, se a comida que comemos é ou não gospel, nem se a novela da Globo que assistimos é ou não gospel. Não há pecado nisso!
    Aliás, a noção de pecado nem existe mais ou existe na perspectiva do incômodo. Se algo me incomoda no irmão ao lado, transformamos em pecado e está tudo certo. Não gosto daquele estilo de roupa, transformamos em pecado e rechaçamos de nosso meio aquele que nos incomoda. E, para mostrar o quanto somos crentes fiéis e espirituais, nós só ouvimos música gospel, que é a música cantada por quem é crente. Acompanhe o vídeo abaixo, em que um famoso pastor, “referência para os jovens evangélicos”, segundo diz sua página, afirma sobre o tema:
    Pois bem, no vídeo o pastor afirma que não é certo ouvir tais músicas, que não convém, pois gera sentimentos ruins, provavelmente causados pelos demônios que habitam tais músicas. Seguindo a sugestão fui ouvir a banda DC Talk, de quem o pastor é fã incondicional, a ponto de nomear o seu ministério (e marca) com o título de uma de suas canções, Jesus Freak, que traduziu como “Loucos Por Jesus” – inclusive os DVD’s de suas ministrações em sua antiga igreja, a Igreja Batista do Getesêmani, em Belo Horizonte, comandada pelo Pr. Jorge Linhares, a canção era o tema de abertura.
  Curtiu a canção? Não é uma bênção, como afirma o pastor? Entretanto, há algo que me intriga quer na resposta do mesmo, quer na canção. De fato, se bem compreendi a música gospel é que te passa uma boa sensação, pois o Espírito Santo está contido nela. Ela te edifica, te fortalece, te faz pensar em boas coisas, etc. e tal. Gostaria que vocês fizessem o teste com uma canção da banda R.E.M., do vocalista e ativista Michael Stipe, assumidamente homossexual.
   Percebeu algo estranho? Pois é, trata-se da mesma canção. Ela foi gravada pelo DC Talk, uma banda cristã, que na opinião do pastor do vídeo é uma bênção do céu. É referência para ele de uma música que edifica, fortalece, te conecta com o divino e, ele sugere que você também a tenha por referência. Porém, a música – a letra, em especial – foi feita por uma banda do mundo, que tem como letrista e líder um homossexual. Se a banda é uma bênção por suas canções, por que a mesma música composta, executada e cantada pelo R.E.M., uma banda do mundo, não o é? Confesso que a minha pouca inteligência não é capaz de compreender tal raciocínio.
    Certa vez, ouvi o João Alexandre, um fantástico e inquestionável músico cristão, afirmou que Paciência, composta pelo pernambucano Lenine, deveria estar entre as canções do hinário da igreja protestante. Parei um pouco e fui buscar compreender o porquê de tal afirmação. Como para alguns não basta a música por si só, recorrerei ao Marcos Botelho para explicar:
Aprendemos erroneamente que a música do mundo (a música feita por não evangélicos) não reflete a glória de Deus. Mas aprendemos igualmente que Jesus pagou o preço por nossas vidas na cruz e, que este preço foi suficiente. Asaph Borba nos legou uma excelente canção a esse respeito, chamada Alto Preço. Recentemente a cantora Damares também gravou  uma canção chamada Alto Preço. Entretanto, ela e o Asaph parecem ter opiniões divergentes sobre o que é um “alto preço”.
   Você concorda que as duas canções parecem antagônicas? Na primeira, Jesus pagou o preço e pela graça somos salvos e redimidos em seu sangue (Efésios 2); por sua vez, Damares precisa pagar um preço alto, que custa muito caro, porque se ela não pagar não verá a Deus, não conquistará o céu. Ela  afirma literalmente: “Embora o alto preço a minha salvação pagou,/Sem santidade não verei seu rosto, ó meu Senhor./Isso também custa muito caro,/Vale mais do que meu próprio esforço” e, mais adiante, “Cada detalhe o Senhor está somando./Eu to pagando, eu to pagando,/O preço pra morar no céu eu to pagando./Eu vou lutando, eu vou chorando,/A santidade tem um preço, eu to pagando./To pagando, to pagando/Um alto preço./Um alto preço.”. Ora, segundo a lógica do pastor referência para os jovens, ambas as canções afirmam as verdades do Evangelho, ambas são bênçãos, pois ambas foram escritas e são cantadas por crentes.
   A mentalidade tosca da dualidade de um mundo secular e outro sagrado, de uma vida secular e outra espiritual tem destruído um dos maiores presentes do criador a humanidade, a saber a racionalidade, a capacidade crítica de compreender o mundo a nossa volta e de disseminar as verdades do Evangelho por onde quer que formos. Não servimos a um deus pequeno que se encontra em paridade com o diabo.
   A teologia do He-Man, que nos leva a desenvolver a síndrome da batalha espiritual como realidade cotidiana em tudo que fazemos, sendo algo de Deus e outro equivalente do diabo, nos faz caminhar na direção da irracionalidade. E, para além disso, tem-nos conduzido a construção de uma cultura secular gospel, pois passamos a copiar o modelo do mundo e rotular de gospel para sacralizar o negócio, talvez por isso o Palavrantiga cante que o sagrado se tornou hilário.
  Francis A. Sachaefer afirma: “(…) quando o homem é coberto pelo sangue de Cristo, sua plena capacidade como ser humano é restabelecida. Sua alma é salva, bem como sua mente e seu corpo. Como cristãos devemos olhar para Cristo diariamente, pois ele produzirá seus frutos por meio de nós. A verdadeira espiritualidade significa o senhorio de Cristo sobre o homem todo. (…) Houve períodos em que os cristãos entendiam essa verdade melhor do que entendemos nas últimas décadas. Há alguns anos, quando comecei a formular uma epistemologia e um conceito cristãos de cultura, muitos suspeitaram do que eu estava fazendo. Pensavam que, por estar interessado em respostas intelectuais, eu não poderia ser bíblico. Esta atitude retrata uma verdadeira mediocridade. Falha em entender que, se o cristianismo é mesmo verdadeiro, ele envolve ser humano todo, incluindo seu intelecto e sua criatividade. O cristianismo não é apenas ‘dogmática’ ou ‘doutrinariamente’ verdadeiro; ele é verdadeiro também em relação ao que está diante de nós, verdadeiro em relação a todas as coisas em todas as áreas da existência humana.“. Noutras palavras, não existem áreas da existência que não se submetam ao senhorio de Cristo, ou melhor, que escapem de seu poder. 
    Por que temer ao que não pode nos tragar? Por que temer ao que não nos separa do amor de Deus? Por que incorrer no erro de acrescentar a Palavra de Deus pingo ou vírgula que não lhe pertence, demonizando a cultura e santificando a igreja? Por que não ouvir músicas que nos edificam e estão conforme os princípios da Palavra de Deus? Ou por que aceitar como certo ou sagrado qualquer canção feita por “cristãos” quando se constituem em heresias?
    Quando iremos nos curar de nossa incoerência? Quando iremos compreender que o culto agradável a Deus é o culto racional, ou seja, aquele que é prestado com entendimento? É urgente a nossa necessidade de uma reforma, de compreendermos que para salvarmos a cultura precisamos produzi-la, não imitá-la! Precisamos ter a coragem e o entendimento de que é preciso derrubar os muros e perceber que a graça de Deus se derrama sobre todos e como, bem diz o amigo César Belieny: “Não importa o veículo, importa a mensagem!”. Lembro-me da entrada de Jesus em Jerusalém, sobre um jumentinho, e como o povo olhava para ele e o rendia louvores. O povo olhava na direção certa. Como exorta-nos Schaefer é preciso olhar para Cristo diariamente, mas infelizmente uma grande parcela da igreja olha apenas para o jumentinho.
    Deus nos abençoe e ajude!

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