Meu mundo repleto de beleza

17 de junho de 2014

 Não sei precisar qual o motivo, qual o propósito, das palavras que ora escrevo, mas se você veio até aqui com o intuito de ler algo profundo ou, no mínimo, lógico num plano cartesiano, eu insisto para não ir adiante. Talvez encontres aqui um desabafo, um devaneio, um delírio febril ou apenas palavras desprendidas do pensamento, do corpo cansado ou da alma fadigada de sensações e sentimentos.

Como faço todas as semanas, deixei minha família e parti para o meu percusso de 170 quilômetros rumo a Bahia, onde trabalho. Ao longo do caminho, vi e vivi muitas coisas: cruzei com pessoas incríveis, escapei de acidentes e assaltos, senti (e ainda sinto) um medo constante, já vivi epifanias, olhei de perto a sequidão e o florescer, experimentei cenas de partir o coração e outras de ajuntá-lo. Porém, em qualquer das circunstâncias, tenho apreciado a beleza, que parece cercar tudo e todos.

Há no mundo, que se espraia perante minhas deslumbradas retinas, beleza. Não a beleza pasteurizada e acomodada pelos comerciais da mercenária indústria da moda; não a beleza dos cabides ou das galerias de arte. Não falo dessa beleza domesticada, ensinada, educada, condicionada, mas falo da espontânea, comum, tão presente e escancarada ao nosso redor. Refiro-me àquela que nossos olhos caídos deixaram de perceber.

Falo da beleza que havia no Éden, que num lampejo, sinto que era reflexo da beleza que havia (e há) em cada ser humano. É a beleza que não se apega ou se circunscreve às formas, formatos, convenções ou padrões. A tal beleza selvagem e impetuosa, refiro-me! É uma beleza libertadora, pura, despretensiosa a que me refiro: a beleza das notas musicais, dos olhos fechados, da brisa refrescante que toca a pele em um dia quente, da criança que sem entender olha curiosa a face de quem a amamenta, como um potro desengonçado e recém-nascido tentando se equilibrar, como um jumentinho novo e assustado à beira da estrada, como um cacto espinhoso insistindo em permanecer sobre a bruta rocha.

Há beleza no mundo que nos cerca, como na criança na garupa da moto do pai que vejo cruzando a ponta sobre o São Francisco, tão agarrada a sua cintura, declarando a todos que cruzam o seu caminho estar segura, livre do impacto de uma batida, crente de que junto ao pai não há o que temer.

Nesse momento, meus olhos marejam, e uma estranha sensação de descoberta me invade. Deglutir se torna mais lento e difícil e, certamente, se tentasse, a voz embargaria. O mundo fez um silêncio sideral, quebrado apenas pela melodiosa e pungente voz de Hannah Reid, soando como anjos cantando em uma imensa catedral vazia e silenciosa.

Percebo ou me percebo fora de mim e o mundo parece girar em câmera lenta, proporcionando-me perceber a beleza da andar malemolente de um velho baiano cruzando a ponte, das meninas ainda jovens vestidas como mulheres em roupas curtas e decotes longos, nos adolescentes que cruzam rindo e brincando a faixa de pedestres, na imensa barreira que contém o sinuoso rio que corta a cidade. Há beleza em toda parte, como fantasmas, a me assombrar.

Não sei se Deus nos olha com tamanha leveza, mas por, um instante, senti que sim. Não sei se tamanha compaixão e doçura surgem de perceber que o mundo é incrivelmente belo ou se seria apenas o impacto da sedutora melodia que ouvia. O fato é que a vida segue e em seu rumo, passei a perceber o quanto é belo perceber a beleza que nos cerca e que eleva a alma saudosa da esposa e filhos que deixei em casa, maravilhada com a paisagem exuberante do sertão, da imensidão do Velho Chico, dos imperiosos gigantes guardiões das hidroelétricas, no meu estranho delírio quixotesco. E enquanto a vida corre como o imperioso rio que nos cerca, eu me deixo transportar na certeza de que o percurso, apesar de árduo, é ainda incrivelmente belo.

E com a beleza tão leve e tão livre, sinto o amor fluir, jorrando de dentro de meu coração tão cheio de minha própria ausência, mas, ao mesmo tempo, tão cheio de uma estranha e amigável presença, incrivelmente bela e graciosa. Percebo o amor fluir na direção do outro e tento racionalmente definir o que sinto ou, quem sabe, do que se trata, porém, sou impelido a deixar de lado a minha previsível busca. De fato, as coisas não precisam sempre encontrar um significado, um sentido, um pertencimento. Aliás, os sentidos me serviriam como grilhões nos punhos de um velho escravo a singrar por entre  os mares em um navio negreiro. Tronar-se-iam censores implacáveis a impedir que vivesse intensamente o meu delírio, a minha epifania, cruzando de maneira transcendente as fronteiras em que enclausurei o meu próprio “eu”.

Paulo Afonso (BA), 16 de junho de 2014.

 

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