Sobre líderes e liderados

11 de maio de 2014

O tema liderança é sempre um tema controvertido da espiritualidade cristã, mas refletir sobre tal é necessário, principalmente os que são líderes de ministérios na igreja, como pastores, ministros de louvor, presbíteros, diáconos etc. Uma liderança mal preparada ou mal curada conduz o povo a doenças e problemas, não passam de guias cegos conduzindo cegos para a cova (Mateus 15.14).

Sobre o tema, Sanders, em seu livro Liderança Espiritual, baseado nos líderes da Bíblia, tece conceitos e uma ampla classificação. Dentre os tipos de líderes, dois me chamaram a atenção: o autoritário e o carismático. Num primeiro momento, temos a impressão de que se trata de tipos antagônicos, pois o autoritário deve ser o líder ruim e o carismático deve ser o bom. No entanto, se olharmos mais de perto, perceberemos que são mais fortes e numerosas as semelhanças que as diferenças.

O líder autoritário é aquele que manifesta a sua vontade e deixa isso claro, essa vontade é imposta e todos devem obedecê-la. A banda toca de acordo com o seu ritmo e ele não se esforça para demonstrar não ser deste modo. As ovelhas são suas e ele não admite afrontas, questionamentos. Em geral, sua igreja é ativa, todos trabalham, todos se envolvem, todos precisam fazer algo, pois “não existe crente com unção de banco!”. Com isso, ele cria pessoas doentes, que confundem cristianismo com ativismo,as quais terminam por ser manipuladas através do apego à obra e do desapego a Cristo. Ele ameaça colocá-lo no banco, tirá-lo do ministério e suas ameaças são constantes, anda em derredor tentando-os, lembrando-os quem manda e quem determina o quê e como deve ser feito. Seus padrões são rígidos e leva ao abandono à sua própria família e a obsessão à igreja, que passa a ser sua e, não de Cristo. Deixa de ser para o liderado a Casa do Pai e passa a ser sua própria casa.

Líderes autoritários são dotados de magnetismo pessoal e de um poder de convencimento quase que irresistível, quase que absoluto. Ele aponta números como justificativa a seu autoritarismo – que é uma distorção da autoridade, o autoritarismo é a imposição violenta da autoridade como recurso primeiro ou único na maneira de liderar. “Vejam como Deus está me abençoando!” e “Não se levante contra o ungido do Senhor!” são chavões constantes em suas bocas.

Quanto ao líder carismático, quase tudo dito acima se aplica, com uma ressalva: o líder carismático sempre está sorrindo. Nada é levado com seriedade – ainda que pareça sério ou se mostre comprometido e diga que irá tomar providências que nunca se concretizarão. Ele nunca disciplina, pois se preocupa com números, quer de ofertas e dízimos, quer de membros para não perder um status que considera importante, pois, em geral, líderes carismáticos – ao contrário dos autoritários que se proclamam “ungidos do Senhor” – são demasiadamente preocupados com sua imagem, com o que os outros irão dizer a seu respeito.

Ambos manipulam suas pregações a seus propósitos e, por mais que se esforcem, seus métodos funcionam apenas temporariamente. Seu controle sobre os liderados se esfacela pelo excesso ou pela frouxidão com que os conduzem. E quando isso acontece se desesperam. Acusam irmãos, perseguem outros líderes, se veem ameaçados e começam a criar acusações, fantasiar perseguições e passam a conduzir suas vidas e ministérios em função daqueles a quem perseguem. Sua visão é míope, pois o Reino de Deus é uma fábula, uma sutil e doce ilusão. Em verdade, trabalham pelos seus reinados, pelos seus principados – quem tiver ouvidos para ouvir, ouça! – tomando seus liderados como sua propriedade. São caluniadores, mentirosos, perseguidores, ressentidos, murmuradores, se proclamam vítimas e com isso buscam a compaixão de seus liderados – sempre me lembram o Gato de Botas, do Shrek, com seus grandes olhos marejados. Vão de em casa em casa, buscando apoio, semeando contendas, disseminando fofocas.

Em regra, esses líderes são sustentados por liderados alienados, no primeiro caso, e complacentes no segundo. Por isso, não raro os vemos acompanhados de pessoas com caráter duvidoso. Apregoa o Eterno – para usar um termo de A Mensagem – mas vivem pelo “mundano”, pelo carnal. Maltratam, torturam seus liderados, agindo com violência ou com omissão, e, ainda, se condoem com sua insatisfação e, quando não lhes restam mais argumentos, oferecem-lhe cargos, envolve outros liderados na sua peleja para não perdê-los. Os liderados são seus, o ministério é seu, a igreja é sua, as ovelhas são suas. Deus não encontra mais espaço em seu meio. Deus não habita em suas vidas e seu Espírito Santo deixou de fluir no exato momento em que tomaram para si a glória que é apenas dEle. Ambos ferem em demasia, perseguem, caluniam, afastam pessoas do Evangelho e da comunhão dos santos, por meio de segregação e acusações. Não concedem a ninguém o benefício da dúvida, a chance do contraditório, mas concedem apenas a arbitrariedade, maldade, mentira e condenação pelo medo de que um dia a sua própria máscara seja retirada e revelada a sua própria face.

Tomemos, pois, como exemplo de líder a Jesus (João 10.1-16), que afirma que o bom pastor (o bom líder) toma a frente de suas ovelhas (de seus liderados), conduzindo-as a pastos verdejantes. Ele as conhecem e elas o conhece, ele fala e elas o ouvem. Não se esconda por trás do autoritarismo ou de um sorriso carismático revela a sua verdadeira face. Diferentemente, os liderados por líder autoritário ou carismático não o conhecem, não o escutam, pois a sua voz está sempre abafada pela máscara que ostenta.

Diante disso, só há uma conselho: apeguem-se ao Evangelho, à Palavra de Deus e ao seu anúncio, a fazer Cristo conhecido e deixe de lado os muitos currais que construímos com nossas mãos, pois assegura o salmista que o Bom Pastor nos faz andar em pastos verdejantes (Salmo 23), não em cercados de angústia, dor e morte. Ele nos marcou com o Seu sangue precioso, não com o ferro em brasa que alguns líderes (autoritários e carismáticos) querem nos marcar. Sejamos membros de um só corpo, de uma só igreja, redimidos pelo mesmo Salvador, herdeiros do mesmo Rei, e ovelhas de um mesmo Rebanho. Deus te abençoe!

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One comment on “Sobre líderes e liderados

  1. Matheus Rezende maio 11, 2014

    Outro ponto em comum nos dois tipos de lideres é que ambos são mal intencionados. Muito disso se dá por culpa dos próprios liderados, que pela falta de estudo e conhecimento da Palavra se deixam enganar por pessoas com discurso bonito e que pregam um cristianismo fácil. Esses lideres, se aproveitam da fraqueza espiritual e emocional das pessoas para tirar delas que tem e o que não tem, em troca, prometem bençãos e mais bençãos, e se a benção não vem? O que eles dizem é que você não tem fé o suficiente, e as pessoas acreditam e se penalizam por isso. O grande desafio da igreja hoje é ter discernimento tomando como referência somente a Cristo, o resto é conversa! Se as pessoas estudassem a Palavra, e soubessem o que Cristo já fez por elas, veriam que nada do que lideres mau intencionados prometem ou exigem faz sentido. Como diz uma música da Banda Resgate, “Eles precisam saber que Deus pode se mover por aquilo que são, por compaixão, e não pelo que podem dar.”

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